Da série: Coisas que chamam atenção no nosso mercado

Data: 17 de fevereiro de 2022 - 08:40
estrela

Por Cláudio Leite

Naquele dia, Otavinho foi apresentar uma campanha num Ministério, e a presença dela na portaria lhe chamou a atenção. Ela: a bola dos adesivos devolvidos que identificam os visitantes.

Refletiu que os seguranças talvez não se dessem conta de quantos registros de briefings, apresentações, reuniões de ajustes, de pré-produção e de mídia jaziam ali naquele relicário autocolante. Um verdadeiro repositório de possibilidades de soluções pra grandes problemas, de esperanças, de ideias, de pactos de confiança. Ou de frustrações, de tempo perdido, de falsas parcerias… vá saber!

Naquele instante, Otavinho foi tomado por um sentimento que chegou a tirar a sua concentração na hora de apresentar a campanha. Ao ir embora, saindo do Ministério, descolou o adesivo da lapela mas não o devolveu pro segurança. Voltou pra agência e decidiu começar a sua própria bola.

Começou pequena, disforme, irrelevante, ao ponto de ser varrida para o lixo pelo pessoal da limpeza e resgatada por Otavinho algumas vezes. Mas rapidamente começou a tomar forma. E a cada reunião que Otavinho ia, ela ganhava corpo e tornava-se mais presente na sua mesa, mais lustrosa, mais robusta.

Otavinho ganhava mais respeito na agência, à medida que o amontoado de adesivos crescia. Os colegas olhavam e pensavam: – Uau, esse cara já encarou muitas reuniões! A coisa evoluiu a ponto de ele sequer precisar mais defender suas ideias. Era só mostrar e pá! A simples presença da bola garantia que ele sabia muito bem o que estava propondo.

Tomou então a decisão de levá-la nas reuniões fora da agência. Na primeira vez, ao se identificar na portaria, carregando a bola, foi olhado com tanto respeito pelos seguranças que esses o deixaram entrar direto, sem que precisasse se identificar. Mas não deixou de pedir o adesivo pra poder encher ainda mais sua bola.

Na reunião, o estranhamento inicial logo se transformou em admiração. Alguns tentavam fazer cálculos pra descobrir se a quantidade de visitas representava mais tempo do que a presença deles próprios naquele órgão. Bem rapidinho, Otavinho percebeu que devia deixar a bola falar por si.

E, assim, a cada reunião em autarquias, secretarias, estatais, ministérios e palácios, ela crescia e brilhava. Passou a pegar briefings e fazer grandes apresentações sozinha. Deu até entrevista pra um site. Ganhou seguidores. No fim do ano, a bola foi convidada para ser paraninfa de uma turma de publicidade. E seu discurso foi aplaudido de pé!

Numa sexta-feira, a bola chamou Otavinho pra uma conversa. Começou dizendo que os tempos não estavam fáceis, que ele era um ótimo profissional, que não havia nada que o desabonasse, blá, blá, blá… e, num gesto rápido e seco, pregou Otavinho numa bola onde já haviam sido grudados, amassados e descartados, outros ex-colegas.

Naquele derradeiro instante, Otavinho ainda conseguiu ver aquela que até então tanto admirava, bem ali na sua frente, contemplando não ele, mas a bola de publicitários amontoados que agora ele fazia parte. Imaginou-a pensando num repositório de possibilidades de soluções pra grandes problemas, de esperanças, de ideias, de pactos de confiança. Ou de frustrações, de tempo perdido, de falsas parcerias… vá saber!